sábado, 16 de agosto de 2014

Carta para Marina Silva

Marina Silva (e talvez a todos os evangélicos da escalada política)

Desculpe-me, mas fico na dúvida de quem realmente a senhora deve ser. 

Qual será o seu verdadeiro caráter? Levando em conta minha (e nossa) constatação sobre a atuação dos evangélicos no poder, de uma forma geral, confesso que fico temeroso e espero logo o pior, baseado-me em minhas experiências pessoais (apesar de conhecer uma minoria que seja uma abençoada exceção).

A respeito do enfadonho discurso que a senhora dissemina sobre a 'perseguição evangélica', e das duvidosas declarações expostas na mídia sobre você, ora defendendo o casamento gay, ora torcendo pela 'cura' dos mesmos, afinal o que é real de fato? E você? É real? 

Só digo-lhe que deveria repensar ao defender a classe de um ser como Feliciano, que teve a audácia (e tiveram a burrice) de ser eleito Presidente da Comissão dos Direitos Humanos, demonstrando logo sua incapacidade ao citar e fazer atrocidades com 'seu' povo brasileiro.

Com falsidade ideológica e demagogia, aquele energumero (a quem nem perco o meu tempo escrevendo, porque mal deverá saber me interpretar) mostra sua incapacidade e ignorância através do elitismo (tendo vindo de origem pobre e ignorante), do racismo (que tem genética negra por mais que alise os cabelos), da teofobia (desrespeitando as demais crenças) e homofóbico (que dá mais pinta do que muitos gays por aí) e que ainda compra carro para a filha com o dinheiro da igreja (dizendo que foi Deus quem deu) e que depois de fazer e dizer tantas asneiras ainda se coloca como vítima de 'perseguição religiosa'. 

Não vejo gays perseguindo e nem atacando evangélicos, mas sim o contrário, sendo condenados e comparados com prostituição. Aliás, Marina, gays não saem por aí com o dedo acusador, julgando quem vai para o céu ou o inferno. Não agridem a sociedade depredando igrejas alheias e imagens de santos. Muito menos ousam protestar em outros eventos religiosos. 

Eles não sujam os ambientes públicos em que utilizam para encontros. E nem invadem a privacidade das pessoas, nas casas, ruas ou meios de transportes que pagamos para usar, com infundados e arcaicos sermões acusadores. Não deturpam a bíblia e a usam como uma covarde arma. Nem fazem propagandas de templos que na verdade são empresas. Não profanam em nome do sagrado. Não ofendem gratuitamente e nem se acham senhores da razão em nome do que dizem chamar de 'moral, ética e bons costumes'. 

Vale lembrar que gays não possuem pastores que fazem de suas fiéis escravas sexuais. E nem moram em mansões ou viajam de helicópteros e jatinhos com dinheiros doados por seu público miserável que deixa de comer para pagar o dízimo. 

Gays também são cidadãos. Nem a medicina constata que são doentes. Também não misturam política com religião e sexualidade. Não fazem abuso de poder e papel de vitimização. Será que a senhora se enquadra no time de Feliciano, Bolsonaro e Malafaia, falsos moralistas e equivocados oportunistas, que deveriam viver na Idade Média, quando a igreja comandava e exercia suas atrocidades, passando-se por justa e salvadora?

Para o seu governo, Marina, gays estudam, trabalham, produzem e pagam contas. Cumprem seus deveres e apenas lutam pelos seus direitos. Alguns ainda constituem famílias e adotam filhos. E isso se denomina dignidade, respeito, cultura, humanismo, cidadania e civilidade (o que muitos evangélicos e políticos deveriam ter ou aprender). 

Deveriam sim pensar nas escolas em que alunos estudam com o guarda-chuva aberto dentro da sala, quando chove, ou que faltam merendas cujas verbas são desviadas. E nos hospitais com pacientes estirados no chão ou esquecidos em macas, morrendo por falta de atendimento e estruturas, além de mulheres parindo nas portas dos hospitais fechados. Já não basta o mico do ano que a Dilma fez com essa Copa?

O papel de um presidente é administrar, representar e honrar pelo seu país, não excluir, envergonhar e difamar seu povo, muito menos usufruir dos seus benefícios. Não precisa ser muito inteligente para deduzir isso. Basta ler as notícias. 

Então vamos organizar as coisas? Cada um no seu espaço. Lugar de religioso é no altar ou no púlpito. E dos políticos é nas câmaras (de gás?). 

Quanto a classe artística, tudo bem que Stepan Nercessian e outros merecem altivos aplausos pelos seus trabalhos. Mas o que dizer de um Tiririca da vida, que precisou fazer até teste para provar que não era analfabeto? Ou da demente Miriam Rios, que queria impedir a contratação de motoristas e babás gays para não correr o risco de 'assediarem' seus filhos? (Será que as 'crianças' dela já viram as antigas revistas em que a mãe aparece nua?)

Direitos humanos deve ser para todos, não somente para menores infratores e criminosos, onde a esposa de um presidiário ou mesmo um bandido têm mais privilégios sociais do que um cidadão comum. 

E isso entristece. Entristece e revolta a gente de uma forma que temos vergonha de ser brasileiros. Ainda amo o meu país, embora ele nada tenha feito por mim até hoje e nem acredito que faça no futuro. 

Mas, se em meio a essa fogueira de vaidades, o diabo cria tantos falsos evangélicos interessado no poder, Deus inventa Jean Willys para a nossa salvação!

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O 13 na vida de Eduardo Campos.



Eduardo Campos tem 13 letras em seu nome.
Começou o namoro com Renata Campos, sua futura esposa, desde a adolescência, quando ela ainda tinha 13 anos.
Quando deputado federal criou a Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural Brasileiro em junho de 2000, no dia 13.
Firmou Pernambuco com o maior índice de vida dos habitantes até 2013.
Elevou Pernambuco ao aprimoramento da educação escolar e profissional em 2013.
Também deu ao estado do nordeste o mais elevado número de empregos e de grandes empresas investidoras na região em 2013.
Como governador se aliou à aliança programática com a Rede Sustentabilidade da ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, cujo pedido de registro do novo partido foi negado pelo Tribunal Superior Eleitoral, em outubro de 2013. 
Recebeu o prêmio 'Pacto pela Vida' do Banco Interamericano de Desenvolvimento, na categoria 'Governo Seguro – Boas práticas em prevenção do crime e da violência', em 2013.
Sua sobrinha Marília Arraes cumpriu o mandato de vereadora de Recife e iniciou na Secretaria de Juventude e Qualificação Profissional da cidade em 2013.
Seu atual partido, o PSB, continha 513 deputados federais. 
Sua maior rival política, Dilma, pertence ao PT, número 13.
Seu avô, Miguel Arraes, então presidente do partido, faleceu em 13 de agosto de 2005.
A trágica morte do aspirante à presidência foi este ano, também em 13 de agosto.
Recentemente havia completado 49 anos e conforme a numerologia: 4+9= 13.
O jato em que ele viajava caiu na cidade de Santos, cujo DDD é 13.
A aeronave também era usada às vezes por Latino, que causou a demissão de dois pilotos ao permitirem que o cantor fotografasse na cabine em pleno voo, em 2013.
O acidente destruiu 13 imóveis situados no bairro paulistano Boqueirão.
E sua morte foi confirmada pela imprensa às 13 horas.
Só para refletir...


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Vinte e dois anos sem Daniella Perez


O amigo Domingos Sávio havia me pedido, há um certo tempo já, para escrever um texto na página que ele havia criado em homenagem à Daniella Perez, desejando fazer uma surpresa para sua mãe, a autora Glória. E agora, logo após o aniversário da jovem que completaria quarenta e quatro anos, e que nunca conseguiremos esquecer, e depois de conhecer pessoalmente Gloria Perez no lançamento do livro sobre Neusinha Brizola, que escrevi com Lucas Nobre, aqui vão finalmente minhas palavras, ajudadas pelo amigo e compositor Júlio César. Não uma dívida salda, mas com o amor que às vezes tanto parece faltar no mundo em que vivemos.

Uma estrela jamais deixa de existir no universo.

Elas nascem e se transformam, mas nunca se apagam. 

Sua luz continua percorrendo intermináveis caminhos. E quanto mais longe estiver, mais forte e longo será seu brilho, no qual mão alguma pode tocar, mas que os olhos podem alcançar inebriados.

Algumas estrelas surgem em nosso planeta com a missão de semear a beleza, a paz, o amor, a justiça e a sensibilidade, muitas vezes incorporando uma sublime força que chamamos simplesmente de arte.

Aos que acreditam em algo mais além da matéria, podemos dizer que somos como as estrelas. Não deixamos de existir. Só nos transformamos. Exatamente como o amor, que, quando verdadeiro e incondicional, não desaparece: apenas se acomoda em algum cantinho dentro de nós. E lá constrói seu ninho. Abrigado. Vivo. Para todo o sempre.

Daniella Perez Gazolla completa vinte e dois anos de partida, porém não deixa de irradiar sua luz no firmamento de cada um que a conheceu, de alguma forma, pessoalmente ou nas telas.

Nenhum céu sobrevive sem estrelas. Nem anjos. Criaturas divinas e criadas para nos proteger, guiar, cuidar e amar, enfeitando nossas vidas e salvando nossas dores, cujas presenças são essenciais entre nós que ainda habitamos esse plano. Afinal, anjos não precisam aparecer para saber que existimos. Basta senti-los.

Em seu olhar que Dani transbordava uma ingenuidade doce, seus gestos leves que demonstravam uma força descomunal, sua presença que preenchia nossos sonhos, sua voz que musicava a alma e sua beleza que deixava o mundo mais perfeito, ela ainda brilha entre nós.

Dani era mais do uma pessoa ou artista. É poesia, fada, anjo, estrela, luz. Ou qualquer coisa especial, livre e ofuscante, e que irradia a esperança de que um dia a humanidade poderá valorizar mais o amor do que a ganância, mais a realidade do que a ilusão, mais a felicidade do que a fama. Porque ela foi assim e deixou sua mensagem.    

E suas sapatilhas, hoje penduradas carinhosamente numa parede, contam uma parte da sua história, através do tecido ruço e das solas gastas, guardando os primeiros e últimos passos que ela deu nos palcos da vida. E possuem invisíveis asas, que se abrem no escuro da memória, ruflam no silêncio da saudade e se debatem rumo ao céu das lembranças, para dançarem no teto estrelado dos nossos corações, onde finalmente repousará, sem deixar de pertencer ao eterno recomeço. 

Abaixo, fotos inéditas e gentilmente cedidas por Glória Perez para Domingos Sávio, que ilustram a página do Face.






               

terça-feira, 5 de agosto de 2014

'Neusinha Brizola sem mintchura' em Paraty

Arte de Rodrigo Manhães.

A primeira vez em Paraty, seja como autor ou leitor, a gente nunca esquece.

Normalmente o evento da Flip acontece no meio do ano letivo, quanto estou às voltas com as provas e aulas de recuperação dos alunos. E isso inviabiliza minha ida. Mas agora o sonho se realizou, através do esforço da atriz Kátia D'Ângelo, em parceria com o professor e diretor teatral Ailton Amaral (que viveu seu momento Van Gogh), e um convite de Luiza Faria, organizadora do Circuito Off-Flip.

Todos sabem que a Flip é a Feira Literária Internacional que acontece em Paraty, e o Circuito Off ocorre antes e paralelamente, promovendo eventos alternativos e regionais. Embora a estrutura da Flip tenha sido reduzida, já o da Off cresceu, completando dez anos de atividades.



Paraty é uma cidade na divisa entre Rio e Sampa, que atrai milhares de turistas, costurada pelas partes nova e a velha, que a faz parecer um cenário de época ou um presépio histórico, com sua arquitetura colonial de janelas e portas coloridas, transformada em pousadas, bares, restaurantes e lojas, espalhados pelas ruas de pedras irregulares.

A região é cercada por montanhas e praias paradisíacas. E a cidade ladeada por uma baía que, quando a maré sobe ou a chuva se intensifica, deixa o cima ainda mais romântico, parecendo Veneza.

Já havia passeado por lá com amigos, em outros tempos, mas não durante a Flip, que dá um brilhantismo totalmente diferente para o local, com uma proliferação de pessoas e toda estrutura montada para a ocasião, onde tudo o que não respira literatura é arte.

A surpresa também é encontrar amigos queridos pelos becos culturais, como Santiago Nazarian, Nelson Motta, Leila Oli, João de Corujão, Tavinho Paes, Camila Carandino, Renata Emily, Imídia, Paulo Girão e Mano Melo, entre outros, que interagiram lindamente em nossa apresentação.


Fazendo parte do roteiro cultural e turístico de Paraty.

Cercado pelo carinho de um público que misturava curiosos, leitores e amigos, fizemos um debate sobre biografias 'chapas-brancas' no Brasil e uma sessão de autógrafos no simpático Lima Bistrô, localizado atrás do Pousada do Limoeiro, quase em frente à Prefeitura, com um delicioso cardápio de café caiçara. 


Lucas Nobre, Luiza Faria, Kátia D'Ângelo, Fábio Fabricio Fabretti e Hailton Amaral.
/ Foto de Eliane Torino /

Também tivemos a oportunidade de assistir ao show da Gal, que abriu a temporada. Era uma das cantoras que eu não ainda conhecia pessoalmente e cuja forte presença cênica comoveu a nós, na área vip, como a toda imensidão de pessoas ao redor.

A palavra que posso definir aquela viagem é 'mágica'. E o amor que eu e Lucas Nobre recebemos foi tanto que deixou saudade antes mesmo de partirmos, e a certeza de que Paraty realmente é para mim, para nós e para todos!

De todos os jornais de grande circulação no país, somente não havíamos saído no O Globo, que ressaltou, na matéria de Thaís Britto, a nossa opinião quanto a polêmica das biografias autorizadas ou não.



Escritores debatem lei das biografias em Paraty 

Biógrafo de Neusinha Brizola diz que prefere histórias autorizadas

E meio à discussão sobre o projeto de lei das biografias que causou polêmicas entre os escritores, artistas e entusiastas do gênero desde 2013 - e que ainda tramita no Senado -, o segredo para escrever uma boa história sem correr maiores riscos judiciais é encontrar um biografado disposto a se expor sem vaidades. Tarefa difícil mas não impossível, garante Fábio Fabrício Fabretti, que ao lado de Lucas Nobre acabou de lançar na Flip "Neusinha Brizola sem mintchura", sobre a movimentada trajetória da filha de Leonel Brizola.
- Eu só trabalho com biografias autorizadas. Não tenho interesse em contar histórias de quem não quer ter sua história contada - Diz Fábio, que já havia escrito, ao lado de Eduardo Nassife, a biografia da atriz Gloria Pires.
- O melhor jeito de não fazer uma biografia chapa-branca é quando a pessoa está disposta a jogar tudo no ventilador. E foi o caso da Neusinha.


Verdades e verdades

Lucas, que é de São Borja, no Rio Grande do Sul, começou atuando como pesquisador para Fábio. Acabou ajudando-o a escrever e compartilhando a autoria do livro:
- É importante quando o biografado está disposto a falar não apenas do auge, mas também dos fracassos e desilusões. Muitas biografias acabam sendo apenas versões floreadas dos fatos e não a verdade. - Defende Lucas.
Mas, mesmo com uma biografia com a ampla contribuição de seu objeto de pesquisa (Neusinha ajudou na concepção do livro até sua morte, em 2011), as dificuldades aparecem. Para Fábio, as maiores foram os buracos históricos e as diferentes versões para um mesmo evento. A saída, diz, é confiar no biografado.
- Precisamos confiar porque a linha condutora é sempre o biografado. Mas é claro que existe a verdade absoluta e a de cada um. Pesquisamos com as outras fontes. Muitas vezes, deixamos algo em aberto para o leitor interpretar. 

(Thaís Britto)    



E para finalizar, um texto de Carlos Dei Ribas para a Folha do Litoral Costa Verde:

Neusinha Brizola sem Mintchura: "Dormi princesa e acordei sapa"

Um turbilhão de ávidos leitores, admiradores, artistas, poetas, moradores acariciam os pés-de-moleque seculares das ruas e ruelas de Paraty, com passos lentos, largos, dançando forró, batendo papos literários ou aleatórios, curtindo um teatro itinerante, se deliciando com uma cocada ou com os instrumentos indígenas expostos nas calçadas, dando prosseguimento à Festa Literária Internacional e ao Curto Circuito Off-Flip de 2014.

Para fechar a noite do segundo dia do Circuito Off - 2014, rolou o concentrado lançamento do livro biográfico "Neusinha Brizola, sem mintchura", de Fabio Fabrício Fabretti e Lucas Nobre, com apresentação da atriz Kátia D'Ângelo, no espaço cultural Lima Bistrô.

Segundo os autores, firmados no compromisso com a verdade, atendendo a um pedido da própria biografa ainda em vida, de que sua biografia servisse para os que querem viver e alavancar a vida, mesmo que isso fosse o seu último escândalo, foram quatro anos de trabalho e muita pesquisa para darem vida a uma biografia que mostrasse uma Neuzinha Brizola brilhante como pessoa, aflorando o seu lado humano, da sua convivência com a família e amigos e não a Neuzinha vastamente explorada politicamente, com intuitos escusos de destruição do pai, Leonel Brizola.


Kátia D'Angelo foi um elemento chave na construção deste trabalho, por ter sido uma amiga presente na vida de Neusinha Brizola, nos momentos de altas e baixas, que passou por situações constrangedoras, como quando voltava em um helicóptero oficial, com os netos de Brizola e o ex-namorado da cantora, Fernando Vannuci, da Ilha de Brocoió e, foram detidos pela Polícia Federal, ao pousarem no heliporto da Lagoa. Segundo ela, teria sido uma articulação/armação da mídia com intuitos de denegrir o ex-governador do Rio. Para ela, Neusinha disse que dormiu princesa e acordou sapa, por ocasião do exílio do pai (e da família).


Durante quase uma hora houve intenso e interessante debate, em que foram levantadas várias questões de conflitos, como "geração trash", "geração saúde" (anos 80/90), politizadas e alienadas, com destaque para um certo vácuo que se observa atualmente, em que, apesar do acesso à correnteza oceânica de informações, via web, paira no ar um marasmo de irreverências, como foi a "montanha russa" da vida de Neusinha Brizola.


(Carlos Dei Ribas)


Photobomb de Fábio Fabrício Fabretti em Paraty tirada por Lucas Nobre.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O mundo rosa de Amarelino





Escrever livros infantis me levou para outras órbitas.

Não só o mundo das crianças, mas dos sentimentos reais, dos questionamento mais puros e das maiores lições.

Em 2009, lançando meu primeiro infantil na Europa, meu editor sugeriu de fazer algo que comemorasse o ano da França no Brasil. Seria uma edição bilíngue e ilustrada, com fundo didático. 


Pensei em escrever algo que falasse sobre diferenças das raças, das das culturas, dos idiomas, dos hábitos e dos pensamentos, através das cores. Mas com algo em comum que une tudo: a amizade. 


Então me lembrei de uma historinha que eu havia inventado para Sofia, a filhinha da minha prima mato-grossense, quando queria acalmá-la. E escrevi sobre um bichinho todo amarelo que morava num mundo amarelado, até conhecer Rosalina, uma bichinha rosa que vivia num mundo cor de rosa, e assim descobrem a infinidade das cores de um jardim.


Sempre fui seletivo com meus trabalhos e faço questão de escolher e contratar meus próprios parceiros. E por indicação de um amigo conheci Marília Bruno, na época estudante de designer, e encontrei nela os traços que queria, dando vida à minha história. Afinal, num livro ilustrado, a imagem não só complementa como pode falar mais do que o texto.


O livro rodou o Brasil e a França, elogiado e usado em sala de aula e palestras sobre preconceito e diversidade em geral, por educadores, sociólogos e psicólogos, inclusive por amigos que fazem belas campanhas sociais e educativas, como Almir França e Bruno Tupan. 


Mas a surpresa maior, porém, foi um dia receber o email de um garotinha: 


'Oi, Fábio Fabrício Fabretti, eu ganhei o seu livro da minha mãe e ela leu todinho para mim. 
Agora pedi para ela me ajudar a escrever pra você. 
Não conhecia o Amarelino e fiquei com muita pena dele, tadinho. 
Ainda bem que ele encontrou a Rosalina e descobriram um monte de cores novas. (...)
Eu não gostaria de viver num mundo que só tivesse uma cor. Deve ser muito chato e triste. 
Você poderia me dar o endereço do Amarelino e da Rosalina para eu ser amiga deles? 
Algumas pessoas acham estranho porque eu sou cega. E isso me deixa triste.
Um beijo.' 





quinta-feira, 26 de junho de 2014

Neusinha Brizola por Celêdian Assis




A Interface Olympus apresenta em uma primorosa edição, a obra Neusinha Brizola sem Mintchura, biografia de Neusinha Brizola, autorizada pelos seus filhos, Layla e Paulo César, idealizada a partir do encontro dos autores Fábio Fabrício Fabretti e Lucas Nobre com a mesma, na década de 80 e segundo Fábio: “Foi nosso grande encontro, naquela tarde de sol e de Neusinha...”. 

Uma história de uma vida curta (56 anos apenas), mas muito conturbada, recheada com o espírito livre e contestador da polêmica e irreverente Neusinha, que não se acanhava de dizer: “Eu adoro um escândalo e daí?”

Alguns fatos eram de conhecimento público, alardeados pela mídia da época, mas não como são revelados nessa obra, com riqueza de detalhes reais e inéditos, em surpreendente relato íntimo, das experiências vividas por ela nos bastidores da política, em sua história pessoal de amores e dissabores. 

São depoimentos estarrecedores, inusitados, recolhidos pelos autores, diretamente de Neusinha, que lhes revelou, natural e minuciosamente, as mais “Escandalosas confissões da mais polêmica filha de um governador, que chocaram o Brasil”, quem desde a infância já se anunciava travessa, “Eu me esbaldava nas viagens que fazíamos pelo Brasil, em campanhas. 

Eram como férias. Ainda guardo na memória a imagem do meu pai alto e sério, gesticulando imperialmente no palanque. E minha mãe, esguia e sorridente, acompanhando-o. 

Eu, abobalhada, cumpria o meu papel da filha fofinha, sem sonhar que me transformaria um dia no terror da família!”. Em outra passagem quando estudava em um internato na Inglaterra ela conta que: “Na escola, criança, eu levantava a saia na frente dos meninos, para mostrar que era diferente deles. Também fazia isso diante das professoras, para ver a cara de horror delas.” 

Em certo momento de sua vida, já madura, reconhece que, “Não penso no futuro, mas também não sofro pelo passado, só conto com o presente, sem arrependimentos. Tudo o que vivi me tornou o que sou hoje.”

A obra conta ainda com fotos autênticas e uma gama de depoimentos de familiares, amigos, muitos artistas, políticos, entre outros que conviveram com ela E que revelam uma Neusinha desconhecida de muitos, uma personalidade única e controversa pela aparente rebeldia. 

Sobre o seu envolvimento com drogas, iniciado aos 14 anos de idade, confidenciou ao autor naquele que foi o último encontro entre eles: “Queria que esse livro fosse um alerta sobre o que as drogas podem fazer. E brincou: Mas ninguém está preocupado com o que uma velha tem a dizer, não é?”

Suas aventuras durante o exílio da família no Uruguai “Nossa fuga para o exílio foi uma metamorfose que deixou marcas e traumas. Entretanto, estivemos mais unidos do que nunca. Se o nosso país não nos queria, o exílio uniu ainda mais nossa família.”

A prisão aos 15 anos de idade, entre outras loucuras, além de um ensaio para a Revista Playboy, cuja publicação foi suspensa por Brizola, o seu casamento em um terminal rodoviário e celebrado por Paulo Coelho, a carreira de cantora e sucesso com sua música Mintchura, entre outras passagens, aguçam a curiosidade e impressionam o leitor por sua intensa trajetória, seja no contexto pessoal, seja no aspecto cultural, ou da história contemporânea do Brasil.

Neusa Maria Goulart Brizola, comportava em seu nome e por si, um elo de sua própria história, com aquela vivenciada em cenários e momentos cruciais da história do país a partir da década de 50, com inúmeras referências ao seu pai: “Meu pai (...) filiado ao Partido Trabalhista Brasileiro - PTB, onde revelou sua afinidade pela luta social. Casou-se, lá pelos anos 50, com a irmã do futuro presidente João Goulart, meu amado tio Jango. E foi aí que tudo começou.”  

“Meu pai é a própria história viva deste país e outros da América Latina, que fizeram parte de sua trajetória, como tio Getúlio Vargas, tio Jango, Fidel, Allende, Marechal Henrique Teixeira Lott, Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek, Juan Domingo Perón, Che Guevara e até Frida Kahlo.” 

Neusinha se referia ao pai, Leonel Brizola, com muita admiração, mesmo que tenha provocado inúmeras confusões, que muitas vezes acabavam por denegrir a sua imagem de político: “Vivemos um passado sofrido, que nos politizou e nos fez acompanhar todos os seus passos. Ele mantinha o jogo aberto conosco e nos deixou exemplos maravilhosos.” 

E para honrar o seu nome, após a sua morte, enveredou-se na política, candidatando-se à deputada e sofrendo por isso grande decepção, principalmente com o partido que seu pai fundara, ao que ela depois, já aliviada pelo seu fracasso nas urnas, dizia: “ Nunca quis ser o ópio dos burgueses. Preferiria ser a champanhe do povo.”

Por fim, a doença que a consumia, valendo-lhe amnésias temporárias, o carinho e atenção dos filhos e netos, a fez refletir sobre a sua trajetória de vida desregrada, “A questão é que precisei maltratar o meu corpo o suficiente para chegar à alguma lucidez e aprendizagem. Eu escolhi todos os meus caminhos e os trilhei até o fim. Se pago o preço por isso hoje, é inevitável.” 

E nada melhor para dizer do que a leitura da biografia de Neusinha pode provocar em seus leitores, do que as próprias palavras dela quando já estava próxima a sua morte: “Então vou morrer contrariando a vida. E mesmo depois de partir, vou continuar dando trabalho e causar meu último escândalo, deixando um livro que vai falar e ficar por mim, sem mintchura!”

(Texto de Celêdian Assis de Sousa)

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Por todos os natais


Sempre que as pessoas comemoram o Natal, eu comemoro minha mudança ao Rio de Janeiro. Aconteceu em 25 de dezembro de 1993.

Foi no mesmo ano da chacina na Candelária, da transição da URV como nossa moeda de temporária e dos fuscas recriados por Itamar Franco, nosso único presidente que não tinha uma primeira-dama e sucessor de Collor após o impeachment. Foi também quando Madonna e Michael Jackson fizeram shows pela primeira vez no Brasil.


E foi no mesmo dia do natal. Uma data simbólica para o cristianismo, mas que sequer está escrito na bíblia, criado pelo homem, como as igrejas.


No ano passado, passei a noite de natal sozinho em casa, como vem sendo nos últimos tempos, mas completei redondinhos vinte anos de Rio. 

Ao chegar aqui, tudo o que eu carregava comigo era um bilhete de viagem para um lugar desconhecido e uma mala cheia de vontade de ficar longe de tudo e todos que me faziam mal. E consegui. O mal ficou preso ao passado e a si mesmo.


Mas também trazia juventude, anarquismo, aventura, romance, sonhos e solidão. 


Nesses vinte anos morando aqui, ganhei asas e voei sobre terras que nem imaginava existir. Conheci pessoas que me ensinaram a sentir saudade, e outras que me trouxeram o alívio da distância. 


Durante esse tempo, muitos sonhos também nasceram. Alguns se realizaram, aos pouquinhos ou de uma só vez, deixando aquele sentimento de paz com você mesmo. Outros se perderam no caminho, talvez porque não valeriam mesmo a pena. 


Nos vinte anos em que vivo nessa cidade, não sou mais o mesmo: mais feliz, mais realizado, mais dono de mim. Só que também mais velho, mais triste e nem tanto senhor de mim. 


Então, quando chega essa época cristã, vejo as pessoas fazendo valer seus lados de boazinhas, retribuindo cartões, abraços e palavras, trocando presentes e se empanturrando nas mesas fartas.

Eu apenas olho para os lados e vejo quem ainda está comigo, apesar de tudo. Olho para trás e vejo o que conquistei e quem ficou. Mas, principalmente, olho para a frente, tentando saber se ainda falta muito ou pouco para chegar lá. 


Vinte anos depois, talvez eu continue sem algumas coisas que não tinha, desde o começo, mas com certeza conquistei o que poucos tiveram ou terão a chance. 


E isso para mim que é o verdadeiro espírito natalino. 


Um feliz natal todos os dias para todos.