terça-feira, 10 de junho de 2014

Família Fabretti


Antigo brasão romano da família Fabretti.

É comum as pessoas pensarem que meu nome é uma invenção artística, criada para o meu trabalho autorial. E com razão, pois até eu duvida que me chamava Fábio Fabrício Fabretti quando mais novo. 

Mas quem criaria um nome tão aliterado assim para si? Só os meus pais, claro. E gratuitamente. Ou para me sacanearem desde cedo, como costumo brincar.

O pior e mais entediante 'castigo' era a hora da chamada na sala de aula, durante minha infância e adolescência, quando os professores - que me conheciam há anos - faziam questão de citar meu nome completo, mesmo eu sendo o único Fábio da turma. E os alunos riam da 'piada', todos os dias, como se a ouvissem pela primeira vez.

Resolvi o 'problema' jurando que, ao atingir a maioridade, iria ao cartório e mudaria o destino do trágico - para mim - ou cômico - para os demais - nome. 

Mas quando finalmente completei 18, senti que perderia minha identidade se assim o fizesse. Resolvi assumir o meu 'castigo' e prometi que assinaria o nome completo eternamente. Aliás, um fato que por vezes gera brigas com editores e dúvidas em leitores. 

O mais interessante é que isso me despertou estudar sobre a origem do sobrenome, e procurar conterrâneos 'perdidos' por aí, desde longo tempo. 

No estado do Paraná, onde nasci e vivi até os 20 anos, os poucos descendentes dessa linhagem pertencem à minha família, mas não havia muitos registros de outros supostos parentes no resto do país, em especial no Rio de Janeiro, conforme apontavam minhas pesquisas nas listas telefônicas, no período pré-informático.

Com o advento da internet tive mais sorte em meu processo de busca. E quando surgiu o Orkut, a primeira rede social a virar febre no Brasil, consegui fazer alguns contatos e até amizades.

Há a possibilidade do nome vir do italiano arcaico, derivando algo como 'fabricante de pequenos instrumentos de ferro', para os construtores de armas antigas.  

Depois o Facebook esquentou esses laços e expandiu mais ainda minha curiosidade, onde achei até um site com o brasão e a história do meu sobrenome.

Abaixo algumas ruas italiana e brasileira e personalidades 'fabrettianas' que encontrei.


Via Fabretti em Perugia, região da Umbria.

Rua Osvaldo Fabretti decretada recentemente no loteamento do Jardim Bassoli, em Campinas. 



Único registro fotográfico de Ariodante Fabretti.

Certa vez o amigo e escritor Italo Moriconi viajou para os confins da Itália, quando estávamos trabalhando juntos num projeto literário, e pedi a ele que me trouxesse um livro de Ariodante, que descobri ter vivido no século XIX, na Itália, autor de vários estudos na época.

Italo retornou da viagem com um presente bem original: um manual dos direitos e deveres das antigas prostitutas romanas, todo escrito em latim pelo velho 'tio-avô'. 

Acho que Ariodante é o maior dos conterrâneos que existiu em nosso clã, deixando até ruas nomeadas em sua homenagem, na cidade de Perugia.

De acordo com o progresso das minhas pesquisas, ele também havia escrito uns cinco volumes da biografia intitulada 'Os Capitães da Úmbria', sobre a ordem dos cavaleiros errantes.

Além de escritor, Ariodante Fabretti foi professor, historiador, senador, cientista, maçom e revolucionário. Acreditava que a 'energia, substância e inteligência' criariam um mundo de riqueza material igualmente distribuída, e que a 'razão' abriria novas e infinitas oportunidades ao mundo moderno. 

Um fator que me intrigou foi a coincidência acadêmica. As tendências filosóficas e científicas que Ariodante tanto se atraia lhe despertaram o exótico interesse pelos temas da 'morte' e do 'morrer, criando uma fundação existente até hoje na Itália, onde estudam, documentam e teorizam sobre a nossa enigmática relação com a morte e a prática da cremação dos corpos.





2. RAFFAELLO FABRETTI


Busto de bronze de Raffaello Fabretti.

Um outro inesquecível mentor dos Fabrettis está em Raffaello, conhecido pelos inimigos como 'Faber, o Rusticus', poque tinha fama de impiedoso e montava um cavalo que chamavam de 'Marco Polo', por ajudá-lo a detectar antigos monumentos e inscrições em suas expedições científicas. 

Foi o responsável pelas escavações dos aquedutos romanos e primeiros estudos arqueológicos da velha necrópole, dotado da tradicional veia científica que parece reger a família.

Sua tendência literária também se fez presente. E ao entrar para a academia italiana dos autores árcades, Raffaello (ou Raphaello) preferiu usar o pseudônimo pastoral 'Iasitheus', como era o hábito dos poetas daquela geração.

Nascido numa incerta data, em meados de 1600, na possível cidade de Urbino, formou-se cedo em Direito e fez o Doutorado aos 18 anos, quando chamou a atenção do Cardeal Lorenzo Imperiali, que o levou para a Espanha, onde se tornou tesoureiro e auditor da legação papal. 

A convite do Cardeal Gaspare Carpegna, vigário do Papa Inocêncio XI, foi mandado então para Roma, como juiz de apelação do Capitólio, onde se especializou-se em antiquários, estudando as relíquias e esculturas europeias. 

A seguir o Papa Inocêncio XII o fez guardião dos arquivos do Castel Sant'Angelo, que ele aceitou até a sua morte, em 07 de janeiro de 1700. 

Além de epigrafista, deixou vários livros sobre a topografia do Lácio, a história medieval e a poesia árcade italiana, expostos hoje pelo Cardeal Stoppani no palácio ducal de Urbino. 

Muito de suas obras literárias são hoje tratadas como relíquias que guardam registros históricos e urbanos do país, mantidas preservadas para visitação e de valor inestimável, em sua maioria, assim como as antigas publicações que pertenciam ao Journal des Savants. 

Um busto de bronze com seu nome e imagem foi levantados no jardim da Piazzale Roma, em Urbino, cidade em que ele faleceu sozinho e deixou sua história.

Histórica edição de 1690 de Rafaello Fabretti.

Isabelita, a menina dos patins





Marília Pera presenteou Isabelita com um anel
que pertencia à Carmem Miranda.
/ Foto de imprensa /

Isabelita é uma criatura doce, querida, 
engraçada, solidária e brasileira.
Faço parte da sua legião de fãs.
 - Marília Pera -


Capa do livro.

O LIVRO

Sobre 'Isabelita, a menina dos patins', minha mais recente publicação infantil, lançada no ano passado, pela Editora Litteris, digo com orgulho que é o primeiro livro inspirado na vida de uma drag queen, como parte do meu trabalho biográfico para crianças e jovens. E quem disse que adultos não gostam de livros infantis?

Em meio à guerra de egos editoriais que enfrentamos, fiquei surpreso com a grande repercussão do meu livro, destacando-se junto do primeiro infantil escrito por Adriana Calcanhoto e daquele que Paul Rogers desenhou sobre Bob Dylan.

A ideia surgiu a partir de uma visita que Isabelita realizou ao lançamento do meu primeiro livro infantil, em 2006. E chegou ganhando a atenção do público, principalmente dos pequenos leitores, que se mostraram fascinados. Nunca havia imaginado o quanto uma drag poderia fazer parte do mágico mundo das crianças.

Depois Isabelita me contou que se sentia honrada por estar lá e por ter sido bem acolhida pelos pequenos, pois recentemente havia sido impedida pelos traficantes de subir em uma das comunidades cariocas,  perto de sua casa, quando pretendia exercer suas visitas solidárias a uma creche.

Em homenagem à personagem e ao caso especificado acima, criei então o projeto, apresentando-o ao meu amigo Luiz Pita, que imediatamente se prontificou a ilustrá-lo, junto de Dalva de Assis. 

Mas o livro ficou por uns dois anos engavetado, depois de pronto, até que Isabelita sofreu um problema cardíaco e, ao receber alta da internação, onde contou com a ajuda de amigos e fãs como Marília Pera, Cláudia Jimenez e Liliana Rodriguez, finalmente me procurou, decidindo levar a obra adiante para prestigiar a vida e a carreira.

Tentando trazer uma linguagem simples e poética, a história apresenta uma Isabelita dos Patins sob uma ótica fora das convenções, revelando uma faceta solidária do seu filantropismo, quando abraçou a causa, há dez anos, de ajudar crianças e jovens menos favorecidos, para levar-lhes alegria, brinquedos e outras doações aos hospitais, abrigos e demais instituições, principalmente na Creche Noel, em Vila Isabel, com a colaboração de artistas, socialites e amigos.

Sem qualquer apologia ou restrição, o livro também pretende celebrar o povo e o país, que têm a honra de acolher um dos grandes ícones da cultura nacional.

Isabelita em sua noite de autógrafos.
/ Foto de Vera Donato /

A PERSONAGEM

A personagem foi criada por um argentino, Jorge, que se naturalizou brasileiro e criou um arquétipo que representa o Brasil no mundo, atraindo adultos, jovens e crianças, principalmente no meio artístico, devido a sua fiel presença em eventos culturais e carnavalescos.

Fixada como uma dos artistas performático mais clássico da atualidade, desde os anos 80, Isabelita tem suas marcantes características: fantasia e cabelo de bailarina, maquiagem de boneca e desenvolturas sobre os patins, num estilo único que a tornou reconhecida na sociedade em geral.

Sua popularidade cresceu no início dos anos 90, quando patinava na Avenida Atlântida, em Copacabana, e se deparou com o ministro e futuro Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, que recebeu um beijo dela, registrado nas páginas e capas de jornais e revistas, servindo até de charges para cartunistas como Chico Caruso.

Isabelita passou a participar de programas televisivos como o de Leda Nagle, na TV Brasil, e o de Roberto Canázio, na Rádio Manchete. Frequentou por anos e com muito sucesso o programa de Liliana Rodriguez, na CNT. Colaborou por um bom tempo na Revista Amiga, por convite de Rose Esquenazi. Também fez comerciais de grifes como da Fórum e da Duloren, além de participações na Rede Globo, em novelas da Glória Perez e programas humorísticos do Zorra Total, entre outros.

Seu nome e imagem se associam aos meios sociais, dentro e fora do território nacional, desde bailes de carnaval aos concursos de fantasia.

Conquistou um espaço exclusivo na fachada do Copacabana Palace, durante as tradicionais manifestações a favor da luta pela diversidade. E viajava para países como Itália, Estados Unidos e França, com destaque no desfile do Festival de Dança de Lyon.

Hoje, somando mais de trinta anos de existência, a revolucionária personagem continuando sua trajetória, agora como a primeira drag queen a inspirar um livro infantil. Recentemente  Isabelita recebeu convite para doar um par de patins ao Museu da Diversidade de São Paulo, imortalizando sua importância histórica. 

Foto do beijo no futuro presidente que tornou Isabelita famosa.
/ Foto de imprensa /

O ENREDO

O livro conta a história de uma menina chamada Isabelita, que nasceu e vivia na Argentina. Seu pai trabalhava no Correio e um dia deu-lhe um cartão-postal do Brasil, retratando carnaval. Encantada pelo país e sua festividade, ela se mudou para cá. Exatamente como aconteceu com Jorge, que vem de uma origem simples na Argentina.

Um certo Natal ela ganhou um par de patins do Papai Noel e aprendeu a patinar no calçadão, tornando-se conhecida pelos moradores.

Certa vez, passeando pela orla, ela presenciou um político e futuro candidato à presidência, cercado pelo povo e pela imprensa, ela lhe deu um beijo na bochecha. E ganhou notoriedade quando ele venceu a eleição.
    
Depois que uma criança que vivia nas ruas a interpelou se ela era uma espécie de fada, Isabelita se comove e decide visitar hospital e abrigos, criando um trabalho solidário com os menores desfavorecidos, e revelando um mundo mais colorido e acolhedor do que aquele conhecido por eles.

O autor e criador do projeto com Isabelita dos Patins
no Hotel Copacabana Palace.
/ Foto de Vera Donato /

AS ILUSTRAÇÕES

Com arte criada e coordenada por Luiz Pita (participante do programa Project Runway Brasil, em 2011, por Adriane Galisteu, na Band) e assistência de Dalva de Assis, as ilustrações apresentam uma forma estilizada da personagem, visando uma mistura de colagem moderna com traços vintages. O processo construtivo foi inspirado na imagem icônica de Isabelita com Carmem Miranda e Evita Peron. Os cenários contextualizados nas paisagens natural e histórica da cidade do Rio de Janeiro, como o calçadão de Copacabana, o Cristo Redentor, a Lapa, a Praça XV, o Teatro Municipal e outros pontos turísticos.

Página do livro 'Isabelita, a menina dos patins',
escrita por Fábio Fabrício Fabretti
e ilustrada por Luiz Pita e Dalva de Assis.


AS ATIVIDADES

Atividades interativas e pedagógicas são oferecidas ao final do livro, com questões pedagógicas que se dividem entre perguntas para estimular a leitura, a interpretação e a capacidade criativa dos leitores.

Isabelita  no lançamento do seu livro,
com o autor Fábio Fabrício Fabretti,
os ilustradores Luiz Pita e Dalva de Assis,
junto da cantora e amiga Adelaide Chiozzo.

 OS ILUSTRADORES

Luiz Pita é de Cuiabá e viveu um bom tempo em São Paulo. Sempre gostou de criar e desconstruir. Aprendeu a cortar, modelar e costurar com sua mãe, no início da juventude. Aficionado por estética e comportamento, formou-se em Designer de Moda. Participou do programa Project Runway Brasil, em 2011, apresentado por Adriane Galisteu, na Band. Desenvolve projetos sociais e atua como criador e gestor de marketing no mercado. Pós-graduado em Design Estratégico e produtor cultural, hoje tem seu próprio ateliê para criar.

Dalva de Assis é do estado de São Paulo. Começou a desenhar ainda criança. Estudou moda e design de calçados. Este é seu segundo trabalho de ilustração literária, depois de Recordações de uma mulher no seu tempo de infância, de Rose Mary Rodrigues Feitosa.

Liliana Rodriguez prestigiando o evento do livro.
/ Foto de Vera Donato /


Isabelita nos envolve em lindos 
rodopios sobre seus patins. 
E nos abana com seus leques de magia.
É muito querida por minha família.
Na TV faz o público sorrir sempre. 
- Liliana Rodriguez -




Matéria da imrpensa sobre o livro de Isabelita,
junto dos infantis escritos por Adriana Calcanhoto
e por Bob Dylan.
/ Foto imprensa /

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A matriarca Tamborindeguy


Os autores Lucas Nobre e Fábio Fabrício Fabretti 
entrevistando Dona Alice Tamborindeguy 
para o livro 'Neusinha Brizola sem mincthura'.
/ Rodrigo Manhães ao fundo /

Hoje recebi de Lucas Nobre, meu parceiro na biografia sobre Neusinha Brizola, a triste notícia do falecimento de Dona Alice Saldanha Tamborindeguy, uma personalidade de nome e rosto marcantes, vinda de duas tradicionais famílias gaúchas, de origem nobre, tanto brasileira quanto basca. 

Viúva do engenheiro e empresário petrolífero, também deputado do Rio que exerceu quatro mandatos, Mário Tamborindeguy, Dona Alice foi mãe de Alice, deputada estadual com seis mandatos, e Narcisa, produtora, apresentadora, artista, autora e socialite de grande carisma, que brilhou no reality show Mulheres ricas. E avó de Nicole, Marianna e Catharina. 

Há cerca de dois anos, enquanto eu e Lucas produzíamos a biografia de Neusinha Brizola, ele ficou encarregado de fazer a maior parte das entrevistas e pesquisas externas, enquanto eu trabalhava internamente no conteúdo do livro. Gaúcho residente em Sampa, vez por outra Lucas se deslocava para minha casa aqui no Rio, quando então trabalhávamos juntos. 

Narcisa Tamborindeguy entre Lucas Nobre e Fábio Fabrício Fabretti.
/ Foto de Rodrigo Manhães /

Numa dessas vindas, ele chegou de manhã anunciando que iríamos entrevistar Narcisa, em seu apartamento, no clássico Edifício Chopin, em Copacabana. Fomos muito bem recebidos. A amiga da família, Nanã Gantois, estava presente, e o papo rendeu boas horas de risos e lágrimas sobre o passado. Ao final fomos chamados por Narcisa para participar do seu programa de rádio pela internet: Ai que Absurdo!.

No dia seguinte retornamos à sua residência para gravar o programa, junto de Layla Brizola e sua filha Marina, também convidadas. Estava presente o amigo, pesquisador e designer Rodrigo Manhães, que registrou tudo.


Fábio, Marina, Layla, Nanã, Narcisa e Lucas,
juntos da matriarca Dona Alice.
/ Foto de Rodrigo Manhães /

De novo muito bem recebidos, mas agora com certa formalidade, por uma Narcisa mais séria e centrada, menos despojada, talvez pelo respeito e segurança da companhia da mãe e da sua equipe radiofônica. E conhecemos Dona Alice, lúcida e imponente, em sua cadeira de rodas.   


Aproveitamos para colher alguns depoimentos de Dona Alice, referente às citações de Neusinha sobre a época em que os Brizolas foram ajudados por ela, durante o exílio no Uruguai, como mostra a foto do trecho abaixo. 

Porém a distinta senhora narrou apenas belas palavras sobre seus conterrâneos gaúchos e politizados. E quando Narcisa pediu para que ela contasse detalhes sobre a pobreza em que os Brizolas viviam, documentou com firmeza:
- Não vou dizer nada desagradável sobre meus queridos amigos.

Página do livro 'Neusinha Brizola sem mintchura'
/ Foto de Lucas Nobre /

Narcisa compareceu com Nanã e amigos em nossa segunda noite de autógrafos do livro 'Neusinha Brizola sem mintchura', patrocinado por Chico Recarey, através de Layla, na Pizzaria Guanabara, palco de inúmeras aventuras de ambos nas décadas passadas.

Mas a Narcisa que revi era uma figura levemente fragilizada, bem oposta da mulher enérgica e animada que convivemos algumas horas em sua casa. E ao nos abraçarmos, enquanto eu agradecia em seu ouvido por ter vindo, ela suspirou:
- Estou muito triste.
Eu já havia tomado conhecimento da grave condição de sua mãe e tive certeza, naquele momento, do quanto a figura materna representa para os seus alicerces. No entanto, ela deixou florir seu longo e espontâneo sorriso diante dos fotógrafos e todos que a cercavam.

Fábio Fabrício Fabretti  um uma das salas na residência de Narcisa.
/ Foto de Rodrigo Manhães /

Dona Alice morreu no Hospital Samaritano, em Botafogo, após alguns dias de internação, por complicações de saúde. Reconhecida como ilustre amiga e célebre presença social, por nomes além de Leonel Brizola e Neusa Goulart, como Darcy Ribeiro, Boni, Ivo Pitanguy e tantos outros artistas, jornalistas, empresários, intelectuais e vizinhos como Osmar e Cláudia Mazargão, Maitê Proença e Tite de Lamare. 

Finalizo reproduzindo a recente citação de Lu Lacerda em sua coluna: 'O Rio está de luto sem essa grande mulher'. Realmente uma grande mulher que partiu, mas deixando a história e o legado da renomada dama que foi em nossa história e sociedade, e que tempo algum jamais conseguirá apagar.

Lucas e Fábio mostrando para Narcisa as páginas
de 'Neusinha Brizola sem mintchura' em que aparecem as suas histórias.
/ Foto revista Contigo /

domingo, 8 de junho de 2014

O terror versus o horror



Você conhece Bryan Maupassant?

Claro que não. Porque ele não existe. Foi um pseudônimo criado para lançarmos os contos góticos de uma coleção, intitulada Dialogando com o horror. Mas que ficou apenas no primeiro volume.

Você também sabe que terror é diferente de horror?

De um modo semântico, enquanto nomenclatura, os dois nomes trabalham com o nosso estado sensorial, mas de formas diferentes. O terror é uma derivação daquilo que é terrível e que amedronta, aterroriza. Já o horror causa arrepios e impressão de repulsa, desagrado, repugnância, ameaça, pavor. O suspense também não tem nada a ver com ambos, tratando de transmitir impaciência e agonia em alguém ou um espectador, sobre algo que vai ou está prestes a ocorrer.  

Como gêneros artísticos, estão ligados à ficção e à fantasia, contextualizado a ideia abstrata não só nas artes literária, mas também cinematográfica, pictórica e imagéticas em geral.

A seguir, o prefácio que escrevi para o livro, na época:

O gênero de terror povoa a criatividade e o prazer dos seus admiradores desde que surgiu. Cada vez mais popular nas diversas produções, tanto nas estrangeiras como nas nacionais, não é algo novo e nem modal. 


Especificamente na literatura, o  terror nunca sai de moda, através do seu peculiar clima, cenário, enredo e personagens remontando ao mais sombrio lado humano, expondo temas sobrenaturais e personagens fantasiosos, desde velhas épocas.

O livros de terror – chamados também de literatura gótica – sempre se associou ao universo do darkismo , ligado à visão pessimista, mórbida, diabólica e contra o mundo carnal e material, fazendo jus ao seu clássico estilo representado por símbolos provenientes das trevas, do inexplicável, do fúnebre e demais elementos que revelam o lindo e negro lado da vida.

O termo gótico designa todo contexto inspirado em vertentes vampíricas, zumbiônicas e satânicas. No âmbito literário despontou no princípio do século XIX, na Europa, durante o movimento do Romantismo, com aguçados escritores como Goethe, Poe, Lord Byron, Bram Stoker e Mary Shelley. Em nosso país, o estilo foi influenciado pelo indianismo que despontava com o olhar nacionalista brasileiro, mas foi fiel com o grupo de Ultra-Românticos constituído por Álvares de Azevedo, Fagundes Varela e Casimiro de Abreu.

No final do mesmo século surgiu o Simbolismo, com seus malditos poetas angustiados e expelindo o existencialismo poético nas escritas, como os franceses Rimbaud e Verlaine, e o inglês Edgard Allan Poe. 


Ao final do século XX, mais precisamente no intróito dos anos 80 e fins dos 70, o gótico voltou a carregar o cedro e a coroa da literatura, acumulando mais fãs e interessados sobre o assunto, alastrando-se para outras artes em geral, como nos efeitos do cinema – Dráculas e zumbis –, no panorama do musical pós-punk – The Smith, Siouxsie, Joy Division, Echo and The Bunnyman e The Cure – e nas vitrines, saindo das ruas para as passarelas de grifes famosas – Vivienne Westwood e Herchcovitch.

A ideologia gótica criou, então, apreciadores dos mais bizarros hábitos e imagens, como os realizadores de rituais macabros, visitantes de cemitérios, usuários da cor preta, indumentários místicos e pesada maquiagem negra, remetendo a uma aparência nada amigável e infeliz, incorporado também pelo rock, compondo toda a estética e comportamento que identificava a alma depressiva e a aparência soturna dos que cultuam a realidade melancólica e negativa que os cercam. 

Porém, muito antes de chegar às estantes, o gótico começou através dos godos, um povo nômade de vivia em plena Idade Média – período em que mais se construiu igrejas sob o domínio cristão. E se associava principalmente às artes arquitetônicas e pictóricas, com fortes traços da religiosidade. 

No Brasil, o despontar do século XIX importou esta geração romântica com os autores do Ultra-Romantismo, com Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela, que escreveram profundamente sobre o amor e a morte, temas centrais da nossa poesia romântica.

Depois que o Simbolismo brasileiro trouxe Augusto dos Anjos e Cruz e Souza, ícones do mal-estar psicológico e físico do conflito entre a dor e o prazer, integrou-se questões referentes à crise do homem diante da pré-modernidade, também conhecida como mal-do-século. 

A seguir, no século XX, a revolução modernista europeia manteve algumas características existenciais na incomparável escrita de Cecília Meireles e Clarice Lispector, entre outros. Hoje, autores mais recentes revelam a caótica condição humana e escancaram o amedrontador submundo em seus escritos, construindo a nova face da literatura gótica no Brasil.

Pela primeira vez descoberto e publicado, Bryan Maupassant, autor desconhecido – ou não – e oculto em sua máscara de mistério, envolto em seu anônimo manto, abrindo o portal do inferno que desnuda seu negro espírito de escrita branca, diante da inquieta literatura que liberta fantasmas e acorrenta leitores. 

Bryan Maupassant apenas nos dá o primeiro impulso para invadirmos a sua caverna de palavras que incendeiam nossos olhos, perturbam nossa mente e estremecem nossos ossos. A morte, para ele, é o grande sentido da vida. E da sua criação. 

Das inúmeras teorias cientificas e místicas que tentam justificar o que é morrer –  rótulo criado para nomear o que não conhecemos e nos atormenta – Bryan mostra, através de suas histórias, o difícil linear entre as fronteiras que dividem a loucura da razão, a realidade da ilusão, a verdade do mito, a vida e a morte. A mesma morte que – provavelmente – jamais conseguimos entender. 

Levando em consideração que o verdadeiro autor oculto está presente em seu livro, deixa-nos a filosófica pergunta da existência do que não existe. Ou seja, Bryan – ou Sérgio, ou qualquer outro autor desconhecido, sabe-se lá – é a prova de que por trás de todo ser imaginário, há um ser real. 

Suas páginas nos arrastam a jornadas subterrâneas de nós mesmos, diante das infinitas especulações que brotam feito ervas daninhas em nossa consciência, através do conhecimento de que um dia morreremos, mas sem, no entanto, decifrarmos o que isso realmente é.

Bryan imprime a cruel certeza – ou a perigosa suposição – do quanto a morte vem a ser mais viva do que a própria vida.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Meu tio Bento



Já dizia João Guimarães Rosa: 'O que tenho, lembro'. Verdade. Lembramos de tudo o que um dia tivemos. Pessoas e momentos, principalmente. Às vezes sentimos necessidade de rever alguns fantasmas, sejam bons ou maus. 

Nostalgia é um veneno doce de se tomar. Saudade é uma feridinha que a gente cultiva na alma. Lembrança é um acontecimento que deixou de ser, mas que será sempre. Passado é uma verdade viva disfarçada de morta.

Há coisas que guardamos num cantinho escondido dentro de nós, e que podemos levar anos sem lembrar. De repente volta, ao vivo e a cores, despertando as senhas mais secretas do cofre em nossa mente, podendo levantar ruínas deliciosas que nos sustentam.

Certa vez na casa do amigo Thiago Picchi, enquanto trabalhávamos com afinco em nosso livro 'Sexo, drogas e tralalá', ele começou a tocar sua doce flauta transversal. Um som açucarado que derretia meus ouvidos. Aquela áurea musical que ele levemente materializava, dos nostálgicos acordes do músico Juan José Mosalini - argentino que engrandece o romântico e trágico som do tango - relembrei - ou redescobri? - o quanto a música é o respiro da alma.

Então me recordei de uma pessoa que nunca caiu no meu esquecimento tardio. É que já tive um tio músico. Um sanfoneiro. Um tio tão roceiro quanto Guimarães Rosa e que sabia magistralmente as notas musicais do seu acordeon. Um instrumento que, diante dos meus olhos de menino da cidade, parecia uma cobra encantada que se esticava e encolhia magicamente.

O som festivo era um contrapondo diante de suas mãos brutas do campo. Mãos que ordenhavam vacas, paria bezerros, capinava o mato e acariciava a cabeça dos filhos e sobrinhos. 

Meu tio e seu acordeon por vezes emergem da sepultura que guardam as coisas que perdemos. Quase sempre vivemos de certas lembranças, umas macias e outras dolorosas.

Na infância, passava minhas férias na sua fazenda, de onde nunca se apagou a imagem daquele tio com cara de homem bom, corpo bronco de labuta, pele tostada de sol, mãos calejadas, sorriso paterno e cheiro de verde. 

Após o jantar, sempre num ritual harmonioso e familiar, no qual ele se acomodava sobre um baixo banco de madeira na varanda. A sanfona no colo, cercado pela escuridão noturna e um pequeno público silencioso de filhos e sobrinhos, iluminado apenas por uma lua arredondada, a rala luz do lampião e uma pequena legião de curiosos vaga-lumes.

Sua música debatia-se e voava pela noite, formando um rastro que seguia para as estrelas. Sinfonia bailesca de um homem só, no rítmico vai-e-vem das mil dobras do instrumento minhocoso que hipnotizava meus olhos estatelados, sentado calado ao seu lado, naquela pequena platéia solitária. Meu tio arrancava um som que parecia uma pequena locomotiva viva.

Foi a mesma pessoa que, nas madrugadas povoadas de grilos cantantes e corujas resmungantes, entre outros ruídos que me despertavam assustado, abraçava-me e narrava suas aventuras cheias de coragem e mistérios, com busca pelas minas de ouros e lutas entravadas com os seres monstruosos que vagavam ao redor da fazenda, que para mim era um recanto povoado de criaturas fantásticas. Criaturas que ganhavam vida e cresciam na sua voz, enquanto eu ouvia enlaçado a ele. Meu tio sabia que isso me fascinava. E ao mesmo tempo em que me embalava ao sono, despertava-me também para o desejo da criação.

É isso. Eu já tive um tio com nome de santo. Um tio contador de causos com a mesma destreza que enfeitiçava com sua sanfona mágica, feito um encantador de serpentes. 

O homem que me fez sonhar histórias, apreciar  música e colecionar palavras inventadas. Era um pai. Um homem do campo. Um músico. Um sonhador. Era um historiador. Herói na sua tragédia diária, o meu tio. Quando ele morreu completava muito tempo que não nos víamos. E tudo era diferente. Eu, estudante perdido na cidade grande. Ele, fazendeiro que vivia na distância. Ambos girando em suas órbitas paralelas.

Talvez por isso preferi não vê-lo morto, sem querer que sua última lembrança fosse triste, porque ele me trouxe alegria e imaginação. E isso é um tesouro que ladrão nenhum roubará de nós. 

Algumas pessoas não combinam com a morte. E meu tio é para ser vivo na eternidade, com seu acordeon encantando as pessoas e suas histórias contando mundos. Foi ele que também ajudou a construir o escritor que há em mim.

À noite, quando só e insone, às vezes ouço suas notas e palavras, virando menino novamente. Como sinto falta do meu tio, do seu abraço, da sua sanfona, do seu sorriso, da sua existência. Sentimos falta das coisas que nos pertenceram um dia. 

Sim, mas obrigado Deus. Eu já tive um tio. Um tio que dizia que gostava de mim como filho. Um tio sanfoneiro. Um tio contador de histórias. Um tio que, muito desconfio, era tão especial que não poderia mesmo pertencer a esse mundo, e talvez por isso não esteja mais entre nós.

(Texto escrito em memória ao meu tio Bento Bergo, há alguns anos).

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Brega: uma poesia do coração.





Em breve o lançamento da antologia 'Poemas da madrugada', pela Editora Litteris, escrito ao longo da vida por uma autora regional, Fátima Lima, eleita para o projeto literário da Secretaria de Cultura da prefeitura da cidade de Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, com participação de Flávia Dantas.

A indicação para que eu fizesse o prefácio, transcrito logo abaixo, e organizasse os textos, foi do amigo Luiz Pita, que fez toda a produção artística do livro, junto de Juliana Fernandez Acosta, consolidando mais um trabalho em parceria comigo, após o nosso 'Isabelita, a menina dos patins', em que ele e Dalva de Assis ilustraram lindamente.

(Ouça aqui uma das declamações de Fátima Lima) 

O que dizer sobre a poesia brega?

Se o conceito de poesia é a arte escrita que transmite um contexto afetivo, seja qual for o seu objeto artístico, o poema é definidamente uma estrutura específica que contém versos, estrofes, métricas, melodias, rimas ou não. E vale lembrar que a poesia é uma das principais artes mais antigas e tradicionais, na qual a linguagem humana se comunica.

O poema é um texto que obedece ao padrão estético e literário. A poesia vem da alma. O poema entra na alma. A poesia pode ser qualquer coisa, enquanto o poema é uma coisa qualquer.

Temos o poema, como um objeto estilístico, contém existência material e concreta do poeta. Já a poesia tem seu caráter imaterial, subjetivo e transcendente. O poema pensa e a poesia fala.

Se poema é uma obra que apresentada padrões e regras, então a poesia é uma forma especial, dirigida à imaginação e à sensibilidade, transmitindo emoções. O poema é racional. A poesia é visceral. E mais: em todo poema há poesia, mas nem em toda poesia há poema.

No caso de Fátima Lima, autora instintiva e visceral, sua poesia é de ordem crua e nua, o seu arroz com feijão literário, tipicamente o prato nosso de cada dia, feita para os amantes que estão por aí, por todos os lados, observando as estrelas e a lua, chorando nos cinemas ou nos finais das novelas, até quem sabe dançando ou ouvindo a sós uma canção de Roberto Carlos ou Alcione.

A vida e o amor são as mais elaboradas essências da poesia. Sempre foram, destrinchados em temas como solidão, separação, euforia, atração... e gerando a fragrância de uma poesia que deseja expressar exclusivamente os sentimentos, considerados por alguns como 'brega'.

Nos dicionários, a palavra 'brega' é algo conceituado especificamente na música, assentado nos aspectos do romantismo popular, em especial na canção conhecida como 'dor de cotovelo', com arranjos sem grandes elaborações, um substancial apelo emocional, exagero de melodias e letras com rimas fáceis e expressões usuais. Também taxado pela elite como um gênero de 'mau gosto' ou 'cafona'.

Desde os anos 80, uma época considerada por muitos como 'brega' – mas afinal qual passado não é? – essa palavra passou a ser largamente usado na mídia, sempre de maneira pejorativa, rotulando a arte criada sem um 'valor artístico'.

Ainda sem conter uma conceituação correta ou profunda, prefiro entender o termo como aquilo que exprime toda arte feita para todos, sem distinção social, cultural ou temporal, longe do refinamento buscado por muitos e com exageros dramáticos e conteúdo livre ou até ingênuo, agradando a maioria.

Porém, como não há uma definição propriamente dita para o 'brega', o termo se torna um extenso alvo de discussão para os que tentam estabelecer um perfil rígido para ele, que mal se designar numa condição específica.

É justamente essa imprecisão conceitual que carrega o 'brega' e o faz abarcar inúmeros artistas, seja na poesia, na música ou nas artes em geral, onde o sentido – ou falta dele – só reforçam sua imprecisão.

Entre tantos boatos, historicamente, cogita-se que a origem do 'brega', embora ainda desconhecido, pode ser um sufixo da palavra 'nóbrega', que consta no nome da rua Manuel da Nóbrega, uma antiga região de meretrício, há muitas décadas, em Salvador, de onde  provinham canções românticas que embalavam as calorosas noites de amor. Seria lá então o berço do 'brega'?

Seja como for, ele continua ligando os amores e suas dores, rimando os corações sem perdões, vendo os amantes chorando ou suspirando, alastrando mais e mais suas raízes por aí. Ninguém escapa incólume da vida. E nem do brega.

Ainda há quem, dotado de um espírito mais elaborado, prefira utilizar o termo estrangeiro 'kitsch'. O fato é que se a poesia de Fátima Lima é brega ou não, o mais importante é o seu contexto e toda a carga biográfica nela contida.

Fátima merece ser conhecida como emissora de um relato da vida, e lida o som de uma música pop, internacional ou não, lenta e antiga, dotada de nostalgia – exatamente como ela fazia nas rádios em que declamava e nos cds poéticos que gravou – lembrando os velhos LPs das bandas nacionais como o RPM, que trazia na capa a inscrição: 'Para ser ouvido no volume máximo'.

Não só na obra de Fátima, poeta do povo, mas também de consagrados autores como Fernando Pessoa, encontramos citações de que as cartas de amor são ridículas, mas que não seriam cartas de amor se não o fossem. E assim aprendemos um pouco sobre o seu amor de poeta revelado pelo poeta do amor.

Mas fica a critério de cada leitor sentir o seu mais sublime e alcançar a sua interpretação, onde percebemos e sentimos que nem todos podem ser poetas, mas o poeta pode ser todos.

E o amor é para todo mundo.

O INQUILINO

(
Fátima Lima)

Certa noite
alguém bateu em minha porta:
Quem é? perguntei.
É o amor, alguém me respondeu.
O que desejas?
Desejo um coração para amar
e um lugar para ficar...
Você está sozinho?
Não, a saudade veio comigo.
Por que vocês não procuram um hotel?
Já procuramos, mas os quartos 
estão cheios de amor...
Abri a porta 
para meus hóspedes entrarem.
E ficaram comigo por um certo tempo.
Certa manhã
 o amor saiu para comprar jornal
e nunca mais voltou.
Até hoje só a saudade 
mora comigo em seu lugar...